18.4.06
Meditação Pascal
Passou mais uma Páscoa, perdõe-se-me o pleonasmo, pelo remoto sentido religioso do termo, dominada pela febre das mini-férias, do descanso, da fuga para o campo ou para a praia, numa cada vez maior ansiedade de nos furtarmos ao frenesi urbano : falso, fútil, todavia absorvente, esgotante.
Parece que a cidade cada vez nos cansa mais e, no entanto, fora dela, a presença humana rareia, a actividade económica diminui, deixando largos espaços com escassa utilização, quase só reanimados em período de férias ou aos fins de semana.
O nosso querido Portugal, na sua parte mais viva, assemelha-se a uma faixa progressivamente adelgaçada, a caminho da dimensão linear. Ainda há anos se falava na concentração de cerca de 90% da sua actividade económica numa faixa litoral de 50 Km de largura.
Entretanto, a referida faixa ter-se-á reduzido ainda mais, emagrecendo o país até um ponto próximo do desespero, pelo definhar da Economia, pelo enfraquecimento da pouca Indústria remanescente, pelo depauperamento da Agricultura, pela debilitação do sector pesqueiro, ou seja, das bases da nossa autonomia, como Nação e como Estado, soberano entre os demais.
Perante a situação igualmente desanimadora dos restantes sectores, como a Justiça, a Saúde e a Educação, com que esperança olhamos nós, hoje, para o nosso periclitante Portugal ?
Lá veio de novo o Relatório do Banco de Portugal reavivar-nos a memória da presente desgraça colectiva, confirmando que não há sinais de retoma, prolongando-se a estagnação, aumentando a nossa distância da média europeia dos 15, com a ameaça de sermos ultrapassados pelos restantes 10 mais recentes parceiros da União Europeia.
Tudo isto acontece quando se aproxima a data comemorativa dos 32 anos da Revolução do 25 de Abril, uma reminiscência já das doces esperanças então abraçadas.
Dirão alguns que não há motivos para tal desespero : abundam nas ruas das cidades e nas auto-estradas do País os Mercedes, os Audis, os BMW, crescem os condomínios privados de luxo, surgem iniciativas empresariais, OPA, fusões, aquisições várias, parcerias, anima-se a Bolsa, sobem os índices, aumenta a confiança no País, como reza a florida prosa governamental.
Porque nada disto nos transmite a tão desejada confiança ? Porque permanecemos incrédulos ? Porque cada vez nos parece mais fictícia, mais misteriosa esta nossa aparente prosperidade ?
A Páscoa é, para os crentes, um momento de renovada esperança na vida, porque nela Cristo triunfou da morte, ressuscitou, voltou à vida, como havia prometido durante a sua pregação. Isto é dito, repetido há dois milénios, mas o seu Reino continua por se realizar e não se vê que para lá as coisas se encaminhem.
Pelo contrário, os sinais sombrios acumulam-se, com as notícias do contínuo aumento do preço do barril de petróleo, logo aproveitado pela Empresas Petrolíferas para de imediato elevarem o preço dos combustíveis, todas em cartel mal dissimulado, embolsando lucros apetitosos, pelas diferenças dos preços das suas anteriores aquisições no Mercado, dito de futuros, certamente negros, como o petróleo e os horizontes que se perfilam para grande parte da Humanidade.
Que grande trabalho esta terá pela frente, para lograr o seu pedaço de conforto ! Que falta fazem hoje os portadores de esperança, os convictos dos seus ideais, os de prática coerente com a doutrina preconizada ! Que se passou nos últimos três decénios para nos termos tornado tão cépticos ?
Envelhecemos, está visto ! Mas e os mais novos : porque não os vemos entusiasmados com utopias ? Porque só os vemos preocupados em chegar rapidamente ao Mercado para assegurarem a sua parte no festim consumista ? E porque procedem eles assim ? Que valores, que doutrinas, que exemplos lhes inculcámos nós, os mais velhos ?
Oxalá estivesse errado, injustificadamente lúgubre, neste meu amargo pedaço de crónica !
Só mais um esforço, Portugueses ! Acreditemos em algo de válido : na Vida, na Pátria, na Espiritualidade - com ou sem ligação religiosa -, na História, no Trabalho, na Criação de Riqueza, na Ciência, no Amor, na Solidariedade, na Família, enfim, em qualquer ideia-força que nos impulsione, que nos leve para a frente, para resgatarmos Portugal do presente poço de amargura em que caiu e do qual tanto nos está a custar tirá-lo...
Outra vez a Esperança, a Índia, o Mar, qualquer coisa destas, clamemos, à maneira do nosso imenso Pessoa, espírito grandioso, brilhante, igualmente tão dado a estes pensamentos, ainda que de forma mais poética, artística, sublime, que, para isso, o Criador o havia dotado !
AV_Lisboa, 18 de Abril de 2006
Parece que a cidade cada vez nos cansa mais e, no entanto, fora dela, a presença humana rareia, a actividade económica diminui, deixando largos espaços com escassa utilização, quase só reanimados em período de férias ou aos fins de semana.
O nosso querido Portugal, na sua parte mais viva, assemelha-se a uma faixa progressivamente adelgaçada, a caminho da dimensão linear. Ainda há anos se falava na concentração de cerca de 90% da sua actividade económica numa faixa litoral de 50 Km de largura.
Entretanto, a referida faixa ter-se-á reduzido ainda mais, emagrecendo o país até um ponto próximo do desespero, pelo definhar da Economia, pelo enfraquecimento da pouca Indústria remanescente, pelo depauperamento da Agricultura, pela debilitação do sector pesqueiro, ou seja, das bases da nossa autonomia, como Nação e como Estado, soberano entre os demais.
Perante a situação igualmente desanimadora dos restantes sectores, como a Justiça, a Saúde e a Educação, com que esperança olhamos nós, hoje, para o nosso periclitante Portugal ?
Lá veio de novo o Relatório do Banco de Portugal reavivar-nos a memória da presente desgraça colectiva, confirmando que não há sinais de retoma, prolongando-se a estagnação, aumentando a nossa distância da média europeia dos 15, com a ameaça de sermos ultrapassados pelos restantes 10 mais recentes parceiros da União Europeia.
Tudo isto acontece quando se aproxima a data comemorativa dos 32 anos da Revolução do 25 de Abril, uma reminiscência já das doces esperanças então abraçadas.
Dirão alguns que não há motivos para tal desespero : abundam nas ruas das cidades e nas auto-estradas do País os Mercedes, os Audis, os BMW, crescem os condomínios privados de luxo, surgem iniciativas empresariais, OPA, fusões, aquisições várias, parcerias, anima-se a Bolsa, sobem os índices, aumenta a confiança no País, como reza a florida prosa governamental.
Porque nada disto nos transmite a tão desejada confiança ? Porque permanecemos incrédulos ? Porque cada vez nos parece mais fictícia, mais misteriosa esta nossa aparente prosperidade ?
A Páscoa é, para os crentes, um momento de renovada esperança na vida, porque nela Cristo triunfou da morte, ressuscitou, voltou à vida, como havia prometido durante a sua pregação. Isto é dito, repetido há dois milénios, mas o seu Reino continua por se realizar e não se vê que para lá as coisas se encaminhem.
Pelo contrário, os sinais sombrios acumulam-se, com as notícias do contínuo aumento do preço do barril de petróleo, logo aproveitado pela Empresas Petrolíferas para de imediato elevarem o preço dos combustíveis, todas em cartel mal dissimulado, embolsando lucros apetitosos, pelas diferenças dos preços das suas anteriores aquisições no Mercado, dito de futuros, certamente negros, como o petróleo e os horizontes que se perfilam para grande parte da Humanidade.
Que grande trabalho esta terá pela frente, para lograr o seu pedaço de conforto ! Que falta fazem hoje os portadores de esperança, os convictos dos seus ideais, os de prática coerente com a doutrina preconizada ! Que se passou nos últimos três decénios para nos termos tornado tão cépticos ?
Envelhecemos, está visto ! Mas e os mais novos : porque não os vemos entusiasmados com utopias ? Porque só os vemos preocupados em chegar rapidamente ao Mercado para assegurarem a sua parte no festim consumista ? E porque procedem eles assim ? Que valores, que doutrinas, que exemplos lhes inculcámos nós, os mais velhos ?
Oxalá estivesse errado, injustificadamente lúgubre, neste meu amargo pedaço de crónica !
Só mais um esforço, Portugueses ! Acreditemos em algo de válido : na Vida, na Pátria, na Espiritualidade - com ou sem ligação religiosa -, na História, no Trabalho, na Criação de Riqueza, na Ciência, no Amor, na Solidariedade, na Família, enfim, em qualquer ideia-força que nos impulsione, que nos leve para a frente, para resgatarmos Portugal do presente poço de amargura em que caiu e do qual tanto nos está a custar tirá-lo...
Outra vez a Esperança, a Índia, o Mar, qualquer coisa destas, clamemos, à maneira do nosso imenso Pessoa, espírito grandioso, brilhante, igualmente tão dado a estes pensamentos, ainda que de forma mais poética, artística, sublime, que, para isso, o Criador o havia dotado !
AV_Lisboa, 18 de Abril de 2006